terça-feira, 28 de agosto de 2007



Era uma vez...

Em uma sala de espera encontravam-se todos os seres humanos. Todos estavam em busca da felicidade. Tentando entender o por que da enorme procura dos seus serviços, a felicidade, que era a anfitriã do local, resolveu mudar sua estratégia de atendimento e brincar um pouco com as pessoas que ali estavam. Enquanto escolhia um alvo para se divertir, passou pela longa sala e, repentinamente, apontou para mim. Eu, que me mantinha cabisbaixa, completamente fora do alcance de qualquer pessoa, fui a escolhida.

Ao passar por mim, ela abraçou-me profundamente e, neste instante, senti o poder de sua transformação. Desde então, comecei a provar o doce veneno da ilusão. Ela me abriu portas de felicidades, apresentou-me a pessoas maravilhosas com qualidades, até então, nunca vistas. Fez-me sentir única em todas as situações e a mais importante em todas as ocasiões. Eu, vislumbrada por sua vivacidade, não percebi as pequenas mentiras camufladas por belas declarações e, aos poucos, começou a se afastar. Em uma noite cálida de verão, sob um luar sumtuoso, digno dos amantes, ela surgiu fascinante com seu habitual riso, e quando lhe perguntei o por que a senti distante, envolveu-me em seus braços e um ar frio mesclado a um sentimento de desolação percorreu pelo meu corpo.

Veja! – falou-me a felicidade - Não gostou de provar de todo o doce mel que é estar comigo?
Sim! Respondi. Não havia percebido como era senti-la em sua fonte genuinamente pura e sincera. Ela sorriu e, suavemente contestou - Não sou a sua felicidade! Pertenço à outra pessoa, mas passei esse tempo com você para que pudesse sentir como é estar ao meu lado. Logo a fonte que beberás serás pura e cristalina como a que desejas.

Momentaneamante, meu corpo foi tocado por uma onda de calafrios deixando-me atônita por segundos, restando a dor que dilacerava meu peito. Por fim, minha garganta degustou o amargo da traição. Nessa hora meu mundo caiu, enquanto eu a via correr para os braços da pessoa a quem ela realmente pertencia.Tão longe se foi, e eu acabei sucumbindo ao vazio da solidão. Quando soube de suas artimanhas, entendi que a sua estratégia se cumprira. A inefável felicidade, proporciona prazer a quem está morrendo à mingua. Compreendi que o seu passatempo foi apenas para mostrar que todos tem direito à felicidade, inclusive os que acham que jamais a terão em toda sua plenitude.

E aos que pensam dessa maneira, ela age com profusão fazendo todos sentirem como é essencial ao ser humano lutar pela felicidade e amar intensamente. Não devemos nunca questionar os encontros e desencontros. Questionei a felicidade por muito tempo em meio a lágrimas, mas logo tudo fez sentido. Veio para me salvar da solidão eterna e do abismo em que me encontrava. Quando passei a entendê-la, meu mundo se abriu e as pessoas que estavam na sala começaram a encontrar a sua felicidade. Ainda não chegou minha hora, mas sei que este dia está próximo. Talvez amanhã, daqui a algum tempo. Sei que serei contemplada e, desta vez, ela não estará enganada. Tudo ao seu tempo!

“Não sabemos discernir onde começa a nossa perversidade e onde termina a nossa compreensão”, Paulo Cadore.

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